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Texto do português Pedro Carvalho gentilmente cedido para o Bikemagazine
Adaptado para o português brasileiro por Marcos Adami

A IMBA (International Mountain Bicycling Association) foi criada, nos Estados Unidos, com um objetivo muito claro: salvaguardar trilhas em risco de serem fechados à prática de BTT (ou bicicleta de todo terreno, conhecido como mountain bike no Brasil).

Desde então – 1988 – muito coisa mudou, a IMBA cresceu substancialmente e apesar do seu objetivo continuar a ser o mesmo, os métodos de ação são agora bastante mais sofisticados, como pudemos verificar depois de estarmos dois dias com uma equipe do projeto “Trail Care Crew” em Santa Rosa, Califórnia.

Fotos: IMBA

A VOZ DOS MOUNTAIN BIKERS

As raízes da IMBA podem ser encontradas numa associação de cinco grupos locais de BTT, originários da Califórnia. Preocupados com a crescente onda de trilhas encerradas aos MTBikers, os membros destes diferentes grupos decidiram juntar esforços para, através do diálogo com outras associações de utilizadores das trilhas e diversos organismos oficiais, em conjunto com uma forte ação de sensibilização junto dos amantes de BTT, mudar o rumo dos acontecimentos.

Atualmente, o lema da IMBA é: Dialogar, Construir, Respeitar e Usar. No fundo, pretende passar uma boa imagem dos MTBikers e convencer entidades oficiais e grupos ecologistas de que o uso adequado das trilhas para o BTT não é mais prejudicial para o meio ambiente do que os caminhantes ou os cavaleiros.

Não é por acaso que uma parte importante do orçamento anual da associação é usado para pagar honorários de grupos de “lobby” junto do governo americano, em Washington.

A IMBA quer ser a voz dos MTBikers, muitas vezes deixados de parte em decisões cruciais e totalmente esmagados pela força dos grupos de caminhantes; nos Estados Unidos existem cerca de 76 milhões de caminhantes! O BTT surge em segundo lugar, com mais de 40 milhões de praticantes.

TRILHAS SUSTENTÁVEIS

Suportada por 500 clubes locais e 34 mil membros, entre os quais está Lance Armstrong, espalhados por 30 países, a IMBA tem vindo a ganhar uma força considerável, graças à sua aposta no diálogo e na educação.

Os mais importantes porta-vozes da associação são os “Trail Care Crew” – numa tradução livre, Equipes de Manutenção de Trilhas – que percorrem o país de lés-a-lés a educar grupos locais de bikers e proprietários de terrenos sobre a melhor forma de criar e manter trilhos sustentáveis e também a sensibilizá-los para a importância do diálogo constante com outras entidades. Respeitar para ser respeitado – é este o conceito chave da IMBA, difundido através dos cursos semanais levados a cabo pelos “Trail Care Crew”.

Este programa já vai no seu nono ano e em 2005 serão realizados 70 cursos; a IMBA espera participar em mais de 100 projetos de construção e manutenção de trilhas sustentáveis, contribuindo com qualquer coisa como 100 mil horas de trabalho voluntário – desde 1988, foram treinadas mais de 150 mil pessoas e criados 8 mil quilômetros de trilhas, graças a mais de um milhão de horas de voluntariado. Impressionante!

CURSOS

O tempo que passamos com o casal Nat e Rachael Lopes, em Santa Rosa, deu para perceber quais os métodos de trabalho da IMBA, a sua aproximação ao problema da sustentabilidade das trilhas e, essencialmente, como a associação quer fazer passar a mensagem de que praticar BTT pode ser, em simultâneo, divertido e responsável.

O curso consiste do seguinte: na sexta-feira à noite é dada uma primeira aula sobre construção e manutenção de trilhas, seguida de uma exibição de slides; no sábado é dada uma aula mais aprofundada, seguida de trabalho no campo; o domingo é passado no terreno a aplicar os conhecimentos aprendidos.

Estes cursos são gratuitos e a sua divulgação está a cargo dos grupos locais, associados da IMBA – em Santa Rosa, o grupo anfitrião foi o “Sonoma County Trails Council”.

Entre a vasta informação partilhada com as cerca de 20 pessoas que responderam à chamada, apesar do tempo chuvoso, destaco alguns pontos essenciais: as trilhas devem ser sustentáveis, o que significa que o impacto ambiental originado pelos mesmos é mínimo e que a sua manutenção deverá ser escassa e relativamente simples; as trilhas devem ser divertidas, para evitar que os ciclistas sintam necessidade de andar fora deles; é importante criar zonas mais e menos técnicas, para satisfazer vários tipos de utilizadores; o traçado das trilhas deve respeitar normas bem definidas, de molde a evitar a erosão precoce; o correto escoamento da água é um ponto muito importante.

Para além destes aspectos, a correta demarcação das trilhas e a sua classificação, em função das dificuldades técnica e física, foram outros temas abordados durante o curso.

A IMBA elaborou um livro muito completo sobre construção e manutenção de trilhas, o qual pode ser encomendado via internet em www.imba.com.

Mesmo vivendo longe dos Estados Unidos, todos nós devemos olhar com atenção para o trabalho que está a ser realizado por esta associação, pois muito do que está a ser feito pode fazer a diferença entre ter uma trilha aberta ou fechada para o BTT. Um exemplo a seguir.

O QUE ESTÁ A SER FEITO EM PORTUGAL?

Talvez a palavra mais adequada seja nada, mas vamos ficar pelo muito pouco. O associativismo e a participação cívica não são propriamente a imagem de marca de Portugal – ainda temos muito que aprender com o povo americano e com os países da Europa do Norte.

Deste desinteresse generalizado, em conjunto com o alheamento da maioria dos Parques Naturais e instituições ligadas ao turismo, resulta uma situação que se aproxima a passos largos de tornar-se um problema sério.

Trilhas demarcadas, com raras excepções, não existem, vigilância nos Parques Naturais – onde continuam a circular motos e quadriciclos impunemente – é coisa rara, pelo que a destruição de zonas sensíveis e o surgimento de trilhas sem qualquer planeamento abundam.

Enquanto a situação não mudar – a começar pela consciencialização dos principais interessados, os utilizadores de BTT – o futuro afigura-se negro. As primeiras ações para limitar o acesso a alguns trilhos já tiveram início, em locais como Sintra, e se os MTBikers não agirem rapidamente, formando associações de defesa dos seus interesses, a exemplo da IMBA, poderão ser apanhados de surpresa por medidas drásticas.

O diálogo entre utilizadores de BTT, Parques Naturais, proprietários e instituições como o ICN (Instituto de Conservação da Natureza) ou grupos de defesa do ambiente tem de acontecer e o primeiro passo deve ser dado por quem pratica BTT.

UM SUBARU COMO CASA

Para o casal Nat e Rachael Lopes (Nat tem ascedência açoriana) este é o segundo ano da grande aventura IMBA. De janeiro a dezembro, a sua vida consiste em percorrer a zona Oeste dos Estados Unidos, levando a cabo o programa designado “Trail Care Crew”. Para trás, deixaram as suas anteriores profissões – Rachael é arqueóloga e Nat trabalhava como consultor na área do marketing, design e fotografia. A paixão pelo BTT e a vontade de viajar falou mais alto.

Na sua casa-ambulante, um Subaru Outback carregado de bicicletas, roupa de BTT, ferramentas e ainda material audiovisual, entre muitas outras coisas, percorrem cerca de 50 mil quilômetros por ano, para, como verdadeiros missionários, espalhar a palavra da IMBA por 35 localidades diferentes.

Apesar de ser um trabalho cansativo e relativamente mal pago, para Nat (31 anos) e Rachael (28 anos), ambos californianos, a possibilidade de viajar constantemente, conhecer centenas de pessoas com a mesma paixão pela modalidade e andar de BTT nas melhores trilhas do país faz esquecer rapidamente as muitas horas passadas ao volante do famoso Subaru azul.

“Às vezes, vamos na auto-estrada e há pessoas que buzinam e nos dizem adeus, quando reconhecem o carro da IMBA” – diz Nat, com um sorriso orgulhoso.

O envolvimento da Subaru neste projeto não passa apenas pelo fornecimento dos carros, pois a marca paga ainda todas as despesas de viagem, deixando para a IMBA o pagamento dos salários.

Uma semana típica para a equipe “Trail Care Crew” do Oeste – existe outra responsável pela zona Este – consiste em viajar entre segunda e quarta-feira e de, quinta a domingo, levar a cabo os “workshops” sobre manutenção e construção de trilhas sustentáveis.

A IMBA realiza 70 destas ações por ano, mas o número de pedidos em 2005 chegou aos 170.

Nat e Rachael vão visitar 20 estados diferentes, incluindo o Alasca, e quatro províncias do Canadá, mas o grande sonho deste casal é passarem seis meses na Europa a desenvolver contactos com grupos locais de BTT. O convite para visitarem Portugal já foi feito.

AÇÕES FORA DOS EUA

Depois de conseguir uma posição sólida nos Estados Unidos, a IMBA enveredou por expandir o seu programa a outros países. No Canadá foi, recentemente, aberta uma delegação em Toronto, mas a associação está também muito activa em Itália, Israel, Reino Unido, Austrália e México.

Atualmente, existem representantes da IMBA nos países mencionados e ainda na Islândia, Noruega, Sri Lanka e Suécia.

Com o apoio de grupos locais, têm sido conseguidos resultados muito interessantes. Um caso exemplar foi o que aconteceu no País de Gales, onde a IMBA colaborou ativamente na construção de uma rede de trilhas de BTT que hoje em dia atrai cerca de 150 mil pessoas por ano à região, o que aumentou drasticamente as receitas provenientes do turismo.

Segundo dados oficiais, em 1994 a zona era visitada por apenas 14 mil pessoas/ano.

O programa de consultoria especializada “Trail Solutions” esteve igualmente envolvido na reabilitação de uma zona próxima da cidade do México, onde terrenos inicialmente destinados à indústria acabaram por acolher uma área de recreação com trilhas de BTT.

Atenta à evolução da modalidade, a IMBA também já colaborou na construção de trilhas específicos para freeride no Canadá. Por curiosidade, fique a saber que o famoso “A-line trail”, em Whistler (British Columbia), é usado por cerca de 5 mil pessoas num qualquer dia de verão.

REGRAS DAS TRILHAS IMBA

1. Ande apenas em trilhas já abertas
2. Não deixe marcas da sua passagem
3. Mantenha o controle da bike
4. Dê sempre prioridade aos outros utilizadores das trilhas
5. Não assuste animais
6. Planeje com antecedência a sua pedalada de BTT