Por Marcos Adami – Fotos de arquivo pessoal dos atletas
Publicado com autorização da revista Bike Action
Muitos já devem ter passado pelo drama de ter que voltar a pedalar depois de um longo período longe do esporte. Seja por motivo de saúde, acidentes, mudança de cidade ou de rotina ou mera falta de tempo, voltar a pedalar vai requerer alguns cuidados e virtudes como disciplina, paciência e determinação serão determinantes.
Como afirma Marcio Ravelli (foto acima) “Voltar é difícil”, mas a verdade é que nunca é tarde demais para voltar.
Longe do esporte, a perda da forma física é inevitável, mas é reversível e a história é cheia de casos de atletas que deram a volta por cima.
O caso mais famoso no ciclismo mundial é do americano Lance Armstrong, que esteve a beira da morte por conta de um tratamento de câncer nos testículos e se tornou o maior vencedor de todos os tempos do Tour de France.
BICAMPEÃO MUNDIAL
No Brasil, um caso bastante inspirador é o do ciclista catarinense Soelito Gohr, que sofreu um grave acidente em 1995.
Quando voltava para casa depois de um treino, uma Kombi cruzou o caminho e Soelito atingiu em cheio a lateral traseira do carro. Os nervos do braço esquerdo foram arrancados e o plexo braquial sofreu sérios danos. Após uma complexa cirurgia em Porto Alegre, Soelito passou por um longo e sofrido período de recuperação que exigiu muita fisioterapia. O ciclista teve que enfrentar o maior terror de todo amante do ciclismo e ficar seis meses sem pôr a mão numa bicicleta.

Soelito Gohr
“Eu pensava em voltar a pedalar e jamais joguei a toalha. Sempre tive essa determinação, mas eu não sabia se conseguiria ser competitivo de novo. Quando voltei a rodar de leve, só de poder estar na bicicleta já foi ótimo”, relembra Soelito.
Para não se abater, o atleta começou com pequenos passeios de mountain bike com os amigos. Ele também ia para as corridas como auxiliar técnico e ajudava a equipe de Blumenau como mecânico. Em 2000, depois de cinco anos, veio a recompensa e Soelito faturou o título de campeão catarinense.
Mas o melhor ainda estava por vir. Em 2001, o ciclista ingressou na equipe de São José dos Campos e andou muito bem e em 2009 e 2010 venceu o mundial de estrada de paraciclismo. “Aminha dica para quem parou de treinar ou de competir por qualquer motivo é cuidar da alimentação. A gente ganha um pouco de peso, mas perde rápido também”, ensina.
Quando perguntado se ficou algum trauma psicológico do acidente a resposta é: “Depois de um acidente como o meu, a gente fica um pouco ressabiado sim. Quando comecei a sair para a estrada era duro. Com o andar da carruagem, já caí outras vezes, quebrei clavícula etc. Mas, hoje em dia, na hora do vamos ver, estou tão focado que esqueço tudo o que passei”.
VOLTAR À FORMA FÍSICA

Márcio May
O ciclista e colunista da Bike Action Márcio May também tem muito a ensinar. May sofreu um acidente de carro na BR-116 em 2007 quando vinha de Santa Catarina para disputar o Campeonato Brasileiro em Indaiatuba, no interior de São Paulo. O atleta passou por uma delicada cirurgia na coluna e teve que ficar dois meses sem fazer esforço nenhum. Só depois de dois meses é que voltou a pedalar, devagar e com bastante cautela. Atleta dedicado, May sentiu pela primeira vez na pele o que é ficar fora de forma.
“Eu tenho um amigo médico que foi comigo no primeiro de treino de estrada. Eu achava ele lento, mas confesso que sofri para andar na roda dele. Foi minha primeira experiência como ciclista fora de forma”, diverte-se ao lembrar.
Se a perda de condicionamento é rápida, o retorno ao patamar anterior também é relativamente rápida.
“Há um ditado entre nós ciclistas que diz que se ficarmos uma semana sem treinar, levamos uma semana para se voltar ao estágio anterior. No meu caso, foram dois meses sem treinar. Mas essa regra é uma lenda, não tem comprovação científica”, conta.
BRONZE COM PESO DE OURO
Outro exemplo de determinação e superação é o do paulista Marcio Ravelli, dono de 11 títulos nacionais no mountain bike. Ravelli parou de correr após conquistar o décimo título na carreira, em 2005, e ficou um ano e meio sem competir. Só em meados de 2007 é que o atleta tomou a decisão de voltar às pistas.
Ravelli sempre foi considerado um atleta com uma mente privilegiada, com um psicológico inabalável. Certamente essas qualidades foram fundamentais para o sucesso de seu retorno às pistas.
No período em que ficou longe das corridas, o atleta se manteve ativo. “Parei de competir, mas todo final de semana andava de bicicleta, sempre tive um biótipo magro e sempre andei forte desde criança. Um indivíduo tem que fazer atividade física. Na vida não podemos nunca ficar sedentários”, explica.
Mas foi a determinação e o foco em vencer que levaram Ravelli de volta ao topo dos pódios. Tudo gradual, nada de uma vez só, como ensinam os especialistas em fisiologia e preparação física. Em 2009, animado com a confirmação da realização do Campeonato Mundial Master em Santa Catarina para o ano seguinte, Ravelli ganhou ânimo e decidiu voltar pra valer.
“O que mais ajuda a regressar é a cabeça. É difícil voltar, mas tem que voltar achando que vai ganhar. No auge de nossa carreira, temos toda a pressão psicológica, o Go For It, a pegada. Quando paramos perdemos a referência de nosso próprio desempenho e não temos mais contato com os antigos adversários.”.
Depois de um período de treinamento, Ravelli voltou a competir em provas menores no interior paulista.
“Não dá para entrar de cara no Campeonato Brasileiro. Corri em Campinas, Piedade, Morungaba e fui fazendo bons resultados e o lado psicológico foi falando para ir mais longe”.
O resultado de tanta dedicação e disciplina veio com a conquista do título de Campeão Brasileiro Master, seu décimo primeiro título brasileiro em 2010. No mês seguinte, Ravelli realizou um sonho pessoal com a conquista da sonhada e suada medalha de bronze no Campeonato Mundial Master em Balneário Camboriú (SC).
Em 2011, Ravelli venceu novamente o Campeonato Brasileiro de Master no Cross Country e é o atleta com maior número de títulos brasileiros na modalidade.



