Texto de Marcos Adami – Bikemagazine
Fotos de divulgação
Publicado com autorização da revista Bike Action

Tyler Hamilton, ex-companheiro de Armstrong, entrega a história
“A verdade realmente liberta.” A frase que encerra o livro de Tyler Hamilton diz muito sobre o ex-ciclista que revela as entranhas do pelotão da elite do ciclismo mundial.
Companheiro e gregário de Lance Armstrong de 1998 a 2001 na lendária equipe US Postal Service, Hamilton conta nas 290 páginas do livro “The Secret Race: Inside the Hidden World of the Tour de France: Doping, Cover-ups, and Winning at All Costs” o caminho trilhado por uma pequena e obscura equipe até o alto do pódio do Tour de France.

Daniel Coyle, do The New York Times
Mentiras, esquemas que lembram filmes de espionagem, corrupção, ameaças, dissimulações, corticoides, testosterona, hormônios, eritropoietina, esteroides e transfusões de sangue. A realidade por trás de uma vitória no Tour está longe de ser algo puro, honesto e bonito.
Mas o livro não é um compêndio sobre drogas. A prosa fácil e sempre interessante do jornalista Daniel Coyle, do The New York Times, conta a trajetória do menino bom-moço de família cristã e escoteiro, nascido na pequena cidade de Marblehead, no litoral de Massachussets, que conquistou seu lugar de destaque no olimpo do ciclismo mundial com o ouro na crono de Atenas 2004 e subiu no quarto degrau do pódio da corrida de bicicletas mais famosa do mundo em 2003. Tyler foi também campeão da Dauphiné Libéré em 2000, Liége-Bastogne-Liége em 2003 e bicampeão do Tour de Romandie em 2003 e 2004.
Claro, cada vitória teve seu preço.
Paniágua
Segredos corroem a alma. Alguns toleram mais, outros menos. Tyler pelo jeito era um sujeito do segundo tipo. Saber que doping é praticado largamente no esporte de alta performance não é nenhuma novidade. No ciclismo, entretanto, o problema é que essa parece ser a regra e não a exceção. Não é necessário ser um ganhador do Prêmio Nobel de Medicina para saber que correr uma prova de 3.200 quilômetros, durante 21 dias seguidos, passar altas montanhas, tudo isso a 45km/h de velocidade média, exige bem mais que mero treinamento e alimentação adequados.
Super-Homem só existe nas histórias em quadrinhos e, fora do universo dos gibis, a realidade chega a ser nauseante e assusta os mais ingênuos.
Tyler admite que é simplesmente impossível vencer o Tour sem recorrer a práticas avançadas (e proibidas) de doping. Mais tarde, Lance Armstrong, o importante personagem coadjuvante no livro, admitiu o mesmo na famosa entrevista à apresentadora Oprah Winfrey. Correr na base do “paniagua” (do italiano, pão e água, literalmente) como é mostrado no livro, é opção para os ”loosers”, ou seja, para aqueles que as equipes determinam que vão fazer força, se sacrificarem para os companheiros e que nunca chegarão nem perto de um pódio. Sim, esse lado do Tour também é mostrado sem pudor. Alguns nunca terão acesso à verdadeira mágica que separa o joio do trigo dentro de um mesmo pelotão.
Pacto de silêncio
Um dos talentos de Hamilton é sua alta tolerância ao sofrimento físico. Desde muito cedo ele soube que suportar a dor era seu trunfo e teria que usar essa habilidade para alguma coisa.
“Sei que parece estranho, mas é verdade. Em todas as áreas de minha vida sou mediano. Não sou um gênio, não tenho reflexos super-humanos . Mas em situações onde as coisas são decididas na base da força física e mental, eu tenho esse dom. O segredo é esse: você não pode bloquear a dor, você tem que abraça-la.” Chegar ao seu próprio limite, forçar um pouco mais, um pouco mais ainda até a vista escurecer de tanta dor e esforço físico. Tyler Hamilton entrou para a história ao contrariar todas as previsões médicas e terminar como vice-campeão do Giro D’Italia de 2002 com a clavícula fraturada.
Apesar da resistência e resiliência física que chegaram a ser comparadas com algo “extraterrestre” por alguns bambambãs da mídia europeia, o lado psicológico de Hamilton foi o Calcanhar de Aquiles que acabou levando-o a colocar a boca no trombone e revelar o que hoje é considerado o maior esquema de doping da história do ciclismo.
O problema é que, em se tratando de doping, existe um código de silêncio que é rigorosamente respeitado pelo pelotão. Embora seja tácito, esse pacto de silêncio é comparado ao que se conhece como Omertá, o famoso voto de silêncio feito entre mafiosos e membros de sociedades secretas, e, caso o juramento seja violado, a punição, na maioria das vezes, é a morte. No ciclismo a punição é outra e o atleta passa a ser excluído, literalmente, do pelotão.
Fórmula mágica
Hamilton descreve com clareza a primeira vez que encontrou Lance. “Foi numa tarde chuvosa de maio de 1994, na cidade de Wilmington, no estado de Delaware. Era a largada do Tour Du Pont, com 12 etapas, mil milhas de extensão e 112 ciclistas”. Nessa época Armstrong já tinha conquistado o titulo mundial de corrida de um dia e havia sido capa da revista Velo News. Em 1997, Tyler entrou de vez no ciclismo profissional europeu e bateu muita lata na base do paniagua em provas como Volta de Valência, Volta da Suíça, Liége-Bastogne-Liége, Ruta Del Sol, Volta da Catalunha e outras. Por mais que treinava, terminava no rabo do pelotão. Foi então que ele percebeu que alguns atletas – os que subiam ao pódio – recebiam discretamente umas sacolas brancas…
Até que um dia, um membro da comissão técnica foi ao seu quarto e ofereceu a fórmula mágica: EPO.
“No meu caso, o EPO me permitiu sofrer mais, ir além e com mais força e vontade dp que eu jamais havia imaginado, tanto em treinos quanto em provas. Era um novo cenário para mim e comecei a correr de maneira diferente”.
Armstrong se juntou à equipe USPS após estar curado do câncer de testículos em 1998 e uma nova fase na vida de Hamilton teve início. Nos próximos anos o ex-escoteiro de Massachussets iria capitanear Armstrong pelas estradas e montanhas europeias até o pódio em Paris. Ambos se mudaram para Girona, na Espanha, levaram suas esposas e moraram no mesmo prédio.

Tyler Hamilton: a verdade libertará?
Olhar fatal
Tyler se refere ao heptacampeão do Tour de France com curioso mix de emoções que vão da nostalgia, passa pela admiração e respeito e, pelo fim do livro, chega a demonstrar certa piedade após a queda do ex-companheiro.
Algumas passagens mostram um lado sombrio e desconhecido de Armstrong. Segundo Tyler, atrás dos simpáticos olhos azuis se esconde uma pessoa de péssimo caráter, vingativo, ardiloso, mentiroso, dedo-duro, ganancioso e disposto a tudo para atingir seus objetivos.
Armstrong é famoso pelo que Tyler chama de “The Look”, um olhar duro e fatal que o texano dá antes de atacar suas presas. Uma brincadeira fora de hora já era motivo o bastante para um “amigo” ficar fora do time na temporada seguinte. O “The Look” entrou para a história no Tour de 2001 no pé do Alpe d’Huez e a vítima foi ninguém menos que Jan Ullrich.
Num episódio em Nice, quando voltavam de um treino, Armstrong, após uma discussão boba de trânsito, perseguiu o motorista sprintando morro acima, e arrancou-o do carro a força, jogou-o no chão e por muito pouco não o espancou.
Detalhes do submundo
O melhor do livro, entretanto, é quando revela os pormenores do esquema de dopagem. Jatos particulares, motociclista exclusivo para delivery de EPO, esquemas sofisticados para espionagem dos adversários (segundo Tyler, Armstrong era fã de filmes e literatura com essa temática).
Engana-se muito quem acha que o que decide uma corrida como o Tour de France são as bicicletas e seus componentes aerodinâmicos ou levíssimos. Bicicleta só ganha corrida nas propagandas de revista. Fica muito claro isso.
Tyler, aliás, nem menciona nada sobre bicicletas ou equipamentos. Médicos e seus métodos são os elementos que decidem as corridas. Por sinal, essa era uma paranoia constante de Lance Armstrong. Quem está tomando o quê, que médico cuida de quem, qual a última palavra droga para aumentar a performance.
O médico italiano Michele Ferrari ganhou logo a preferência de Armstrong pelo seu profissionalismo e método apurado. No fundo, era ele quem decidia tudo. As transfusões de sangue são também descritas em detalhes e os engenhosos métodos de transporte, que incluiu em determinada vez um fundo falso numa casinha de cachorro. Numa outra ocasião, o motorista do ônibus da USPS foi instruído a simular uma pane mecânica numa pequena estrada e parar no acostamento. Com as cortinas fechadas, os ciclistas recebiam então a transfusão. Agulhas eram regularmente descartadas numa latinha de Cola-Cola previamente acertada entre todos do pelotão.
Os métodos para despistar os temidos Comissários Antidoping, tidos como inimigos número um, são igualmente engenhosos. Todo ciclista do esquema possuía o celular de todos os companheiros e mantinham olheiros em suas casas, espelhos estrategicamente colocados na parte externa da casa, câmeras de vigilância, saídas e rotas de fuga pela porta dos fundos, e outras artimanhas. Outra técnica consistia em medir sempre o índice de hematócritos e ter sempre a noção do que é chamado de “Glow Time”, ou seja, o tempo em que determinada substância fica no organismo e pode ser detectada pelos controles antidoping.
Veneno
O rompimento com Armstrong veio logo após a Volta da Suíça de 2001, segundo Tyler, tudo culpa de seus excelentes resultados nos testes físicos aplicados pelo Doutor Ferrari. Ao se sentir ameaçado, Armstrong o teria desligado da equipe e Tyler começava assim seu declínio.
Em 2002, Tyler junta-se à CS-Tiscali a convite de Bjarne Riis, que pergunta sem cerimônia: “Que métodos vocês usavam na US Postal?”.
A manjada EPO já era algo do passado e as transfusões entram em cena na vida de Tyler com o médico espanhol Eufemiano Fuentes, Ufe para os íntimos, que estudou na Alemanha Oriental e Polônia e foi responsável por boa parte dos bons resultados da Espanha nos Jogos Olímpicos de 1992.

O livro The Secret Race
Tyler narra como treinou duro e se preparou para a maior conquista de sua carreira, o ouro na crono dos Jogos Olímpicos de Atenas, em 2004, e como retornou à sua cidade como um verdadeiro herói, orgulho da família e da nação.
O problema é que Dr. Ufe era relapso, sem senso de organização, e cometeu vários erros que levaram Tyler a ser pego no controle da Volta a Espanha de 2004, já pelas cores da equipe suíça Phonak. A medalha foi cassada, a vergonha e o peso na consciência ficaram grande demais para ser suportado e Tyler entrou num perigoso e destrutivo processo de depressão, com incursão pelo alcoolismo até finalmente iniciar um tratamento com um psicólogo de Boston.
Cansado da pressão e de ser consumido pelas mentiras, Tyler resolve contar tudo.
Segredos são venenos, acredita Tyler.
** Já está disponível a versão em português do livro, com o nome “A Corrida Secreta de Lance Armstrong”, da editora Seoman.



